terça-feira, 24 de novembro de 2009

Pela estrada de Noll



Era 2002, em Santos, e eu estava deitado em minha cama lendo a última página de Hotel Atlântico, romance de estrada de João Gilberto Noll. Na última linha sentei na cama com um acesso de susto. Devo ter soltado um “ahn!?”, que nem sei se foi sonoro, mas na hora sabia que aquele era em um dos melhores encerramentos de romance que já havia lido na vida. Indiquei para amigos – que tiveram a mesma reação com o final – e elegi o romance como um dos meus favoritos na literatura contemporânea brasileira.

Minha relação com o livro Hotel Atlântico foi algo meio mágico – estava evitando usar essa palavra, mas não tem outra, foi mal. Ouvi falar dele pela primeira vez quando estava numa tarde quente procurando algo novo para ler nas prateleiras da livraria Realejo, em Santos. O dono de lá, o gente boa Zé Luis, me indicou Hotel Atlântico e disse que, pelos autores que estava procurando, eu iria gostar daquilo. Não comprei na hora e segui adiante. Meses depois li o conto Alguma coisa urgentemente, na antologia dos Cem melhores contos do século. Me impressionei com aquela narrativa forte e com a história pesada da relação conturbada entre pai em filho em plena ditadura militar. Foi a hora de dar ouvido ao livreiro e ler o romance.

O encontro
Em 2003, quando trabalhava de repórter do caderno de cultura de um jornal de Belém, recebi um release dizendo que Noll estaria em Belém para uma palestra no Instituto de Artes do Pará. Falei com o editor, liguei para a assessoria, pedi um fotógrafo e consegui uma hora com ele.

À primeira vista, Noll parecia um intelectual de poucas palavras. Na sala em que reunimos para a entrevista, estavam as duas assessoras de imprensa do Iap e o escritor paraense Vicente Cecim. Esperei minha hora e, quando finalmente pude entrevista-lo, constatei que aquele silêncio derivava de algo mais particular do que uma simples timidez.

Noll fala devagar, fecha os olhos quando cita algo intenso, respira entre uma palavra e outra e é, acima de tudo, humanamente educado. A entrevista correu muito bem. Ele disse ter ficado surpreso com um repórter que realmente conhecia a sua obra.

Lá fora, já no cigarro descomprometido, lhe confessei que tinha alguns escritos arquivados e queria muito que ele lesse um conto meu e me desse o papo real, se dava pra insistir ou se abandonava o navio.

Mandei o conto “Priscilla”, a história de um escritor velho e sem muito a dizer que se apaixona por uma garota nova. Meu conto era propositalmente um clichê “nabokoviano”. Na semana seguinte ele respondeu dizendo que havia gostado muito do conto, que minha história era boa e que desistir daquilo seria uma péssima idéia. Poderia estar sendo educado, claro, mas guardei aquelas palavras durante um bom tempo, depois as arquivei na gaveta e, então, só as retirei hoje, uma semana depois de ter visto o filme de Suzana Amaral.



O filme

Minha mãe e meu pai costumam ter uma opinião parecida com a minha em relação a filmes. Raramente discordamos. E então um belo dia abro o jornal e vejo que, finalmente, Hotel Atlântico estava nos cinemas de Belém. Falei animado com ela na hora do almoço, no que ela rebateu um tristonho “é, eu vi, achei uma porcaria”. Imaginei na hora que poderia ser por dois motivos: 1 – ela não ter lido o livro; 2 – Suzana Amaral ter perdido a mão e errado na adaptação de um livro difícil para o cinema. Foi o número 1. Quem não leu o livro tem tudo para achar o filme uma grande merda.



Fui sozinho. No cinema havia uns tipos que estavam ali para sacar um peitinho da Mariana Ximenes. Desconfio de gente assim – e em determinados momentos eles estragaram a sessão rindo do desnecessário. Logo no começo, um indicativo de que a diretora acertara. Imediatamente eu recordei da narrativa do filme. A cada cena que avançava eu só tinha certeza de que a velhinha Suzana Amaral havia mergulhado no livro da mesma maneira que eu e que a escolha de Julio Andrade (o novo ator favorito para adaptações literárias) foi acertadíssima. Na entrevista que havia feito com Noll, ele disse que Paulo César Pereio estava cotado para o papel. Ainda bem que não rolou.

Apenas uma decepção grande com o filme: o final foi um despencar das nuvens. Um livro que termina daquela forma não poderia encerrar de uma maneira menos trágica. Tudo bem, aí vai a liberdade da diretora, que optou por algo menos dramático e mais confuso. Mas nada disso tira o crédito da adaptação acertada de Suzana Amaral. Lá fora, neguinho a comparou a Antonioni e David Lynch, mas ainda bem que não era nada disso.




Hotel Atlântico foi uma de minhas maiores inspirações. Vidrado em histórias de estrada e tipo esquisitos que se encontra por aí, a narrativa de Noll propõe um mergulho nos tipos brasileiros e em algo bem mais profundo do que um simples enredo, um personagem que carrega a vida para cima e pra baixo, sem carteira e sem mochila, e esperando o momento certo para dispará-la, como a última bala do coldre.

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