terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A dança de 2013

2013 foi um grande ano. Tenho motivos de sobra pra comemorar e fechar o ano feliz por tudo o que me aconteceu. Foi tão bom que fica difícil de enumerar, mas de cara penso que passei por uma operação complicada e que foi um sucesso, assisti a alguns dos melhores shows da minha vida ao lado da minha gatona, meu festival foi um sucesso, conheci velhos ídolos, o CD da banda em que toco foi lançado, participei da banda do disco da Ana Clara, fiz boas viagens, participei da curadoria de um projeto genial chamado Mostra Terruá.

E todas aquelas coisas boas que acontecem e a gente não comemora como vitórias, como beber com os amigos, chegar em casa são e salvo todas as noites, ver toneladas de filmes, ouvir cavalhadas de musicas. Li bem menos do que poderia, confesso, mas tive o melhor de todos os presentes de 2013, a notícia da publicação do meu primeiro romance, "Iracundo".

Houve contratempos sim e episódios tristes como o afastamento do meu convívio do meu sobrinho Gustavo, que foi morar no Rio. Mas ainda assim me apego aos detalhes bons.

Sinto muito pelos que não tiveram um 2013 tão especial como o meu, mas torço muito para que seu 2014 seja dos mais especiais. Não sei se gastei mais da minha cota de felicidade em 2013, mas espero que 2014 seja pelo menos tão bom quanto foi 2013, para eu aprender a dançar igual o Christopher Walken.

Até amanhã.



sábado, 21 de dezembro de 2013

Insights em 3G



Quase me afogo em tanta opção digital. O poder intuitivo do touch screen nos aproxima cada vez mais de uma resposta imediata e isso traz um conforto tão grande, que às vezes me esqueço de agradecer a alguém. Mas no fim, temo pelo grande apagão. Tomo ar e ponho um disco na vitrola. Retomei esse hábito salutar. Minhas good vibrations são emanadas pela tecnologia analógica. Não que eu entenda muita coisa da diferença, ou que tenha um ouvido tão apurado pra preferir um ao outro, mas sei que meu espírito precisa de energia analógica.

Tenho gastado mais do que posso comprando vinis importantes para ter tudo o que mais gosto em CD, mp3 e vinil. E por mais que eu tente essa lista de “discos importantes para se ter em vinil” só aumenta. O trabalho é gostoso, eu me entrego e no final só tenho que entender que sou um viciado. E essa é a parte em que sorrio.


Comprei uma daquelas lanterninhas para prender na contracapa ou livro e ler no escuro. Uma invenção incrível. Na loja não parava de falar pro vendedor “que invenção foda!”. Cheguei me gabando e falaram logo “ué, mas eu leio no iPad”. Esse é o ponto! Estou me preparando pro apagão. O próximo passo é estocar comida imperecível. E no final das contas, my bróder, eu gosto é de uma estante repleta de opções e um HD com efemeridades.



quarta-feira, 19 de junho de 2013

Machu Picchu


 Faz tempo que não devoro romances com a voracidade que devorei Machu Picchu, de Tony Bellotto. Havia lido seus dois primeiros romances policiais no final dos anos 90, do detetive Bellini, depois nada mais. Naquela época, a narrativa e o humor do autor já me chamavam a atenção. Em Machu Picchu encontro uma dedicatória a Reinaldo Moraes, um de meus autores favoritos, e penso “merda não deve ser”. Dei a dica – sem querer - em uma feira de livros à minha namorada e ganhei um exemplar de dia dos namorados. Levei metade de duas manhãs para concluir a leitura e, no final, dar um tapa na capa de livro e falar em voz alta “Do caralho! Que puta livro!”.


Não tem jeito, meus autores favoritos são contemporâneos, vivem as mesmas coisas que eu, enxergam entrelinhas em comportamentos urbanos e referenciam uma coisa ou outra de cultura pop para rechear o enredo. Mas principalmente, gosto da literatura que faz rir. Um livro é o melhor lugar para se expor sentimentos verdadeiros, observações contundentes e, por que não?, utilizar humor, afinal, ser engraçado escrevendo é um desafio – que eu adoro.


Machu Picchu se passa em um único dia, no maior congestionamento de trânsito do Rio de Janeiro, e é narrado em três frentes: o advogado que bate uma bronha pra uma gostosa de 19 anos pelo Skype, uma esposa que cultiva um amante há seis meses e o filho maconheirão que tem como guru um traficante hipponga engraçadíssimo. Ainda que Machu Picchu seja eletrizante até mais da metade e que, depois enverede por um enredo quase novelístico de TV, o livro conclui bonito, como um autor experiente que domina muito bem sua narrativa.



Tony Bellotto, mais uma vez, mostra que é muito mais do que guitarrista dos Titãs e marido da Mallu Mader. Mas isso já devem ter falado pra caralho.


sábado, 1 de junho de 2013


TRAGO ESSA ROSA

“Se o guitarrista de apoio quebrasse a mão, como no De volta para o futuro, eu poderia subir lá e tocar o show inteiro com eles. Sei tocar todas essas músicas.”, disse à Ana Clara na metade do show do Jesus and Mary Chain, banda que me fez decidir de uma vez por todas ir ao Primavera Sound 2013, em Barcelona. Não sabia como estava minha cara, mas ela me disse que era sorriso de ponta a ponta. Não lembro de sensação igual, talvez no show do AC/DC, que estava a 1 km de distância. Mas naquela sexta-feira, 24 de maio de 2013, os irmãos Jim e Willian Reid estavam a menos de 10 metros de mim cantando todas aquelas músicas que escuto e venero desde os 17 anos. Estavam todas lá Head on, Far gone and out, Sidewalking, Some candy talking, Happy when it rains, Taste of Cindy, numa simpatia incomum de Jim Reid, e no tiozão Willian, equipado de sua semi-acústica e dois amps e cabeçotes da Orange - tudo o que o ser humano precisa pra ser feliz.

Bilinda e Jim Reid em 'Just like honey'. Quem viu, viu...


E se na volta do Jesus and Mary Chain, há alguns anos no Coachella, eles tiveram a presença da Scarlett Johansson em Just like honey, no Primavera Sound a mesma música teve a participação da Bilinda Butcher, do My Bloody Valentine. Chupa, Coachella! Não saberia comparar os festivais, mas só de ver algumas revoltas contra os Stone Roses dos fãs do festival californiano, acho que minha simpatia está toda para o lado do Primavera Sound. Ambos tiveram line ups bem parecidos em 2013. Primavera teve Jesus and Mary Chain e My Bloody Valentine, eles tiveram Stone Roses. Mas, vamos lá, Primavera Sound é em Barcelona, uma das melhores cidades do mundo.

Quando estava de frente para aquele show, vi que muito da minha ida à Espanha tinha sido pelo Jesus and Mary Chain. E ainda de quebra tinha a coisa toda de estar na Espanha com a mulher amada, vendo os melhores shows de sua vida, comprando toneladas de discos e encontrando amigos com objetivos semelhantes. Meu turismo sempre foi impulsionado pela música. Agradeço demais à Ana Clara ter me levado aos museus de Picasso e Miró e à exposição surpresa de nosso novo artista favorito, o espanhol Chema Madoz. É o bem que faz a união.

Os irmãos Reid, aqueles que fizeram toda a diferença pro meu rock 'n' roll

E ela lá, me aguentou no frio esperando o show do My Bloody Valentine. Sentamos em duas cadeiras esperando o show e tentando nos proteger do frio que doía nos ossos. Quando começou, assistimos bonito à primeira música lá de trás. Até que veio uma daquelas coroas cheiradas, acompanhada de outro velho trincado, pegou as cadeiras que dispensamos e subiu pra assistir ao show. Eu cutuquei e falei “minha tia, por favor, né?”, e ela fez gesto de que ficaria só um pouco. Ficou a próxima música, na seguinte e na seguinte. Cutuquei de novo já bem puto e ela falou alguma merda que não fiz nenhuma questão de entender. Quando vi que não ia descer comprei uma cerveja para “derrubar acidentalmente nela”. Mas para evitar maiores constrangimentos mudamos de lugar e tudo o que pude fazer foi desejar todas as doenças venéreas do mundo para a loba.

"Ô Shields, bichô, cê num tá exagerando?"

Vimos o show do outro lado. Uma experiência de vida, diferente de qualquer show de rock. Na preparação para o palco, de longe, vi os técnicos empurrando um carrinho com mais de 10 amplificadores. Cheguei perto para fotografar a parafernália de Kevin Shields, um dos guitarristas mais influentes do rock inglês dos anos 90. My Bloody Valentine ficou conhecido por suas melodias doces e sussurradas cobertas por ruídos ensurdecedores de guitarras bem timbradas. A parede sonora que o My Bloody Valentine cria não é uma barulheira qualquer, é muito bem pensada para cada um dos amplificadores, cabeçotes, pedais e guitarras que estavam no palco. Fora o visual com uma panada branca no fundo do palco com todas aquelas texturas de cores, distorções e tudo em perfeita sintonia com o som, representado por três mulheres e dois caras. O My Bloody Valentine é uma banda linda de se ver e de se ouvir. Tenho todos os discos e gosto demais há muito tempo, mas confesso que nesse show entendi perfeitamente o motivo deles terem sido uma das bandas mais influentes de sua geração.


O Festival (agora sim)





Em meio a uma Espanha assolada pelo desemprego, crise econômica e uma certa tensão no controle migratório, a música parece, mais uma vez, ser o suspiro de alívio e a recarga de energia que se precisa em um momento como esse. Em Barcelona, todo mês de maio, um festival de música - batizado com a deliciosa estação climática que anuncia o verão - é um dos pilares da economia da região, que atrai turistas de todos os cantos da Europa e das Américas. O Primavera Sound recebe cerca de 300 mil pessoas durante toda sua semana de programação. O que menos se vê são espanhóis. Há gente de todo canto que viaja até a Espanha para acompanhar o line up de um dos festivais mais bem conceituados do planeta.

Já havia passado raspando de ir festival Primavera Sound. Ano passado estava na Europa, bem pertinho de Barcelona, quando houve o festival. Esse ano, quando anunciaram Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine, Blur, Bob Mould, Dinosaur Jr, Daniel Johnston, Tame Impala, Grizzly Bear etc., não tivemos muito tempo pra pensar e decidimos fazer essa dívida e levar esses shows pro resto de nossas vidas.

Blur é um furacão. Fiquei impressionado com o gás que a banda entra no palco. Tender foi um dos momentos mais belos do show, junto com End of a century, pra mim a melhor música do quarteto. Mais uma sorte que o público do Primavera Sound teve. No Coachella eles tocaram a manjadona Song 2, no Primavera foram de End of a century.

Já tinha visto três shows do Dinosaur Jr no Brasil, mas nunca é demais ver os vovôs skate wear botando para fuder, assim como o tiozão Bob Mould que, em trio, mandou todos os hits que construiu em sua carreira solo e com o Sugar. Gosto muito de Hüsker Dü, mas lá minhas músicas favoritas são de Grant Hart, o batera doidão.

Camera Obscura fez um show dançante e cheio de alegria. Já o Nick Cave...


Pra mim, que fui até lá ver minhas bandas de coração, saí muito feliz de ter assistido aos shows de Grizzly Bear e sua explosão visual e de melodias belíssimas; ao Tame Impala e a molecada ligada na psicodelia; ao quarteto doidinho Thee Oh Sees; ao competente Deerhunter. E valeu muito a pena ter assistido ao show simpático e lindo do Camera Obscura, que era na mesma hora do Nick Cave – que não fazia questão de assistir e que vai me fazer perder alguns amigos, parentes e leitores com essa declaração.

Valeu a pena ficar uma hora e meia na fila pra entrar no auditório, ficar láááá em cima e ver 25 minutos de show do Daniel Johnston. Emocionante ao ponto de encher os glóbulos de lágrimas o talento genuíno de Johnston e suas canções verdadeiras e belíssimas. Ele foi um ponto alto que contou nossa ida ao festival.

Houve algumas baixas que, fatalmente, geraram alguma frustração. Impossível ficar de boa com o cancelamento do show de Rodriguez, o trovador americano puxado do limbo pelo maravilhoso documentário Searching for Sugar Man. Ficamos bem tristes sabendo que não o veríamos dessa vez. Sixto Rodriguez está velhinho e teve um problema de saúde que o obrigou a cancelar sua apresentação. Sem contar com as desistências de Fiona Apple e Explosions In The Sky.

Queria ter visto também o Band of Horses – que assisti na fila da cerveja no Lollapalooza do Brasil no ano passado. Eles também não se apresentaram graças a um tornado em Oklahoma, cidade do grupo, que os impediu de embarcar rumo à Espanha.

Os quase cinco quilômetros que percorríamos freqüentemente para assistir aos shows me fez pensar se encararia uma próxima edição do festival espanhol. Dificilmente uma programação como a desse ano me encha tanto os olhos como a que participei. Mas que não seria nenhum sacrifício voltar para alguns dias de paella, Parque Guell, Gaudi, bairro Gótico, Ramblas e discos na Carrer Dels Tallers. Barcelona é fantástica e o Primavera Sound contribui para isso.



p.s: Antes do show do Blur, na área VIP reservada para a Heineken, com uma espécie de varanda na lateral do palco, uma banda de sotaque britânico começa a tocar. Aquilo me pareceu bem familiar, até que na segunda música eu reconheço. Era o Wedding Present, quarteto inglês que teve seu disco George Best cultuado entre fãs do britpop dos anos 90. Como um regallo para os fãs do Blur, a banda fez um pocket show com 6 músicas e presenteou os poucos que os conheciam e que, enfim, puderam fazer um ‘check’ nos revivals que dominavam aquele festival.



*Fotos by myself, exceto a primeira, com Bilinda e Jim Reid.



segunda-feira, 8 de abril de 2013

Carta pro Bob



Fala, Bob.

Como é que ta essa força aí? Soube que tua passada por aqui foi animal. Geral falou bem, se emocionou e comentou o quanto estavas fazendo falta. Muita gente comentou que essa pode ter sido a tua última vez que tu dá as caras por aqui. Meu, tem 17 anos que vieste da última vez! Caralho... Naquela época eu era um jovem – ainda de indumentárias grunges - com cabelos compridos, bermudão e camisa do The Doors, naqueles mágicos e reveladores 18 anos. Naquela época eu tinha uma guitarra bem perebenta e pagava de guitarrista por aí, mas a real é que não tocava porra nenhuma.

Era 1996, não é isso? Naquela época meu irmão Renato tinha um ano de idade. Quatro ou cinco anos depois daquilo te apresentei pra ele. Hoje ele toca guitarra e bateria, e tem diversas bandas. Já tivemos o privilégio de tocar juntos umas das tuas. Hoje o moleque tem 18. E eu, atualmente, vivo em função da música. Incrível como a tua onda influenciou a minha, e isso tudo está presente no rumo que a minha vida tomou. Quando fiz vestibular, a música que não saía da minha cabeça era Pictures of you. Conheci alguns dos meus melhores amigos, que permanecem neste status até hoje, por causa do gosto em comum pelas tuas viagens. Devia ter uns nove ou dez anos quando te vi pela primeira vez na casa de uma prima mais velha. Ela tinha uma bela coleção de discos, e entre eles um “daquele cara todo arrepiado”, como ela se referia a ti.

Toco razoavelmente guitarra e baixo e já toquei muitas das tuas. Ah, eu tenho um festival também. Claro que ainda não é um daqueles que te conheci, naquele domingo chuvoso de janeiro, no Pacaembu, em meio àquela nuvem de fumaça de maconha, passeando naquela repleta fauna de bangers de cabelos verdes fãs de White Zombie, indies que ainda não sabiam que eram indies, góticos, bruxas, dragões, magos e playboys. Era a última edição do Hollywood Rock em uma noite que ainda teve Smashing Pumpkins, White Zombies, Supergrass e Pato Fu. Aquele universo todo me foi apresentado graças a ti, sacana.

Bem, vou ficando por aqui. Eu sei que não deu pra dar essa prestigiada, mas sei lá, vai que em dois, cinco, dez anos tu volte, né? Se não, capaz da gente se encontrar num desses festivais da Europa. Ou, quem sabe, um belo dia o The Cure não dê as caras (trocadilho de merda) na Amazônia. Já pensou, rapá?

Abração,

Marcelo Damaso




p.s: E o filme “This must be the place”, tu curtiste? Sean Penn é foda, mas achei que ele exagerou na frescura. Mas não fique puto, isso tudo é porque a moçada te curte muito.



terça-feira, 26 de março de 2013

No Brasil selvagem


Quando assisti ao filme "Into the wild", em 2008, estava no meio de um processo que considerei fundamental para minha entrada nos 30 anos, uma grande virada na minha vida. Experimentava um período sabático em Montevidéu, dedicado ao auto-conhecimento e ao "projeto Iracundo" - meu livro ainda não lançado. Naquele ano estava deixando para trás uma vida que me conduzia a uma morte lenta e sem graça, trancafiado em redações de jornais, freelancers sem tesão e uma Se Rasgum ainda não embalada.

Durante esse período, o dinheiro das horas extras acumuladas com o adicional noturno, ferias vencidas e a porra toda me garantia alguns luxos na capital uruguaia. Um deles era ir a São Paulo visitar os amigos e sair andando por ali sem rumo. Numa dessas tardes entrei no cinema para assistir ao filme de Sean Penn.

Saí tocado pela história real e sensível dirigida pelo ex-Madonna's puncher achando que aquilo tudo fazia sentido na minha vida naquele momento. Liguei pra minha mãe e disse "vende o carro, vou esticar minha epopeia pelo velho mundo". Alaska não, né? Sou doido mas quero ar condicionado, avião, taxi e black label. Minha mãe chorou e disse que estava com saudades e que não ia vender meu carro porra nenhuma. Amamãezei e deixei de lado aquela idéia. Voltei para Belém e agora minha vida não é mais aquele suicídio a longo prazo de outrora.

Tudo isso para falar de Gareth Jones, um inglês que conheci há algumas semanas, coincidentemente, em um arremedo de boteco inglês em Belém. Acompanhado de um amigo igualmente louco, Aaron, os dois entraram em uma das aventuras mais incríveis que já ouvi na vida: atravessar sem transporte motorizado o Brasil do ponto mais extremo do Norte (que não é mais porra nenhuma no Oiapoque, e sim Caburaí) até o Chuí, este sim ainda o ponto mais extremo Sul do País. Naquele momento eles estavam em Belém após sair de Caburaí e chegar de canoa, remando, a Santarém. Canoa, isso mesmo que você leu.

Graças a uma burocracia de prazos da Ancine para permissão para filmar no Brasil,  os dois tiveram que parar a jornada ali e ir cada um para sua cidade natal renovar o visto e estender a licença. Para isso, Belém foi a parada obrigatória. Na volta, dentro de um mês, eles retomam a saga de Santarém e chegam em Belém para ir andando (!) até o Rio de Janeiro (!), depois de bicicleta (!) até o Chuí (!, ! e !).

Acompanhados de uma mochila cada um, apenas com o necessário - e uma canoa que desmonta e vira outra mochila, Aaron e Gareth remaram por quilômetros e quilômetros Amazônia abaixo, dormiam em pequenas comunidades ribeirinhas, acampavam perto de onças e estiveram expostos a toda a selvageria da Amazônia.

Quando me mostrava vídeos e dava mais detalhes da aventura, Gareth falava de outros casos de Forrest Gumps que também já haviam feito o percurso. Apenas dois, um de bicicleta e outro correndo. Sobre este último, Gareth comenta "esse é um louco!". Certo, as pessoas normais vão de canoa, andando e de bicicleta, né?

Eu disse a Gareth que ele era louco, quando ele me respondeu: "loucura era o que eu estava fazendo na Inglaterra, trabalhando num emprego que odiava (Bolsa de Valores) e vendo minha vida passar diante dos meus olhos". Nesse momento dei um sorriso de cumplicidade, entendi o que também me levou a passar um tempo no Uruguai e comparei as condições, me achando um tremendo bunda mole.

O dois registram em vídeo (em imagens belíssimas) tudo o que estão vivendo. Jerry prestava serviços ao Discovery Channel, nos Estado Unidos, e o objetivo é transformar toda essa viagem em uma série de TV.  Em muitas de suas paradas eles fazem o upload de todo o material gravado, já contando com um eventual imprevisto ou surpresas dessa brasilidade toda em que resolveram mergulhar.

Pergunto a Gareth sobre sua segurança e ele me diz: "estamos nas mãos do povo". Nesse momento entendo mais ainda o quanto esse "projeto de vida" é importante. Além de dar à dupla uma experiência de vida verdadeiramente rica em todos os sentidos (pelo menos os que importam), ainda levanta questões sobre cidadania, humanismo, amizade, solidariedade e comportamento. Será que o Brasil, de Norte a Sul, está pronto para colaborar com essa jornada? Eu só torço pelos gringos e para que sua história chega ao maior número possível de pessoas.





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