quinta-feira, 28 de maio de 2020

Amores em quarentena




PREFÁCIO
Por Marcelo Damaso


Computadores avançam
Artistas pegam carona
Cientistas criam o novo
Artistas levam a fama
(Chico Science)



Sempre que estamos em casa vendo um filme, ouvindo música, lendo um livro ou fazendo qualquer coisa que disponha de tempo e prazer, pensamos “putz, eu poderia fazer só isso na minha vida!”. Mas quando a gente se vê, em uma situação como essa, obrigado a ver um filme atrás do outro, ouvir discos que a gente nunca tinha parado pra ouvir e se aventurar a ler livros com mais de 1.000 páginas a gente, só pra contrariar, pensa “o que é que eu vou fazer com essa tal liberdade dentro de casa?”. Cientistas buscam a cura, médicos e enfermeiros cuidam dos doentes e artistas criam. O confinamento tem seu lado bom, mas o descanso cansa. E chega a hora em que a inspiração bate e a gente não vê outra saída que não seja criar.

E iniciativa desse projeto começo com uma história que me veio à cabeça de duas pessoas vizinhas que se conhecem batendo panela e passam a se relacionar melhor graças à reclusão. Fui escrever. Antes, mandei uma mensagem para o amigo Edyr Augusto, perguntando como ele estava no meio disso tudo. Falei então da ideia de escrever um conto e ele prontamente disse que também escreveria. Surgia então a ideia de convidar alguns escritores para criar um enredo de histórias de amor (umas menos que outras) que se passem durante o período da quarentena imposto pelo enigmático e odioso Corona Vírus.

Foi aí então que falei com o Toni Moraes, dono da editora Monomito, e detentor das principais ferramentas para se publicar um livro de contos nesse momento. A ideia ganhou corpo e logo conseguimos reunir 10 escritores, a maioria confinado em seus lares em Belém. Abraçaram o projeto xs escritorxs: Ana Ruscher, André Takeda, Caco Ishak, Edyr Augusto, Estrela Leminski, Marcelo Damaso, Patrícia Rameiro, Rochele Bagatini, Toni Moraes e Vladimir Cunha. A arte ganhamos do nosso querido Rodrigo Cantalício. O site foi feito pelo Max Delson. A organização e iniciativa foi minha, Marcelo Damaso, e a edição ficou a cargo do Toni Moraes.



O fato é que nesse livro temos gaúchos, goiano, piauiense, paulista e paranaense. E com a proposta de lançar o livro virtualmente em PDF e para Kindle, todos os autores carinhosamente aceitaram o convite para levar um pouco de ficção para as pessoas em casa, uns em termos mais esperançosos, outros em enredos obscuros, mas todos mirando a paisagem apocalíptica dos dias de quarentena.

“Amores em quarentena” é um grande abraço virtual (como o momento permite) de 10 escritores e um artista visual que criaram histórias de amor, solidão, compaixão, tolerância, perda, farra e medo, mas, sobretudo, esperança. Tem duas luzes fortes brilhando: a que a gente não deve ir ao encontro e a que aparece lá longe, no fim do túnel.



Baixe gratuitamente em PDF 




*Essa coletânea de contos é dedicada à memória de Rubem Fonseca.

terça-feira, 9 de abril de 2019

I turn on the light the TV and the radio


Sou dos que ainda assiste TV, escuta música no formato analógico, ainda pego (mesmo que raramente) um taxi pensando em equilibrar a disputa. Ainda presto atenção na letra da música, em filme que não está apenas na Netflix, jogo vídeo game no modo história e tento sorrir para as pessoas na rua sempre que dá. Procuro nas comédias bons roteiristas e pontos que se identifiquem com a minha desgraça pessoal, o que, certamente, faz a graça ter graça.

No entanto, não vou estufar o peito dizendo que pertenço a uma geração, que “no meu tempo isso aí, rapá...” e que pare o mundo que eu quero descer. Da mesma forma que vejo Globo News, acesso a Mídia Ninja. Se escuto um vinil em casa, saio para andar com meus fones felizes em uma playlist do Spotify. Troquei meu carro por um cachorro e andamos de Uber. Não deixo de pagar a Netflix desde 2012, mas nunca deixei de ir ao cinema e baixar filmes. Adoro jogar vídeo game on line e acho bastante graça de memes. E se tem uma coisa que ondei é notícia pelo Whatsapp, sem autor e que, infelizmente, é a que mais se propagada.

Sou um filho do cruzamento da cultura analógica para a digital – o que explica a quantidade de CDs em casa. E se essa cultura que me formou está completamente diferente da atualidade, não sou eu que vou praguejar contra os jóvi.

Trabalhar com música e cultura não é apenas para quem fecha os olhinhos sentindo cada timbre valvulado da guitarra alinhado com uma letra que despedaça o coração, nem estar ligado apenas nas novas tendências, as que balançam a raba, ou apenas sentir o groove e ficar de cara com a performance. É ter o mínimo de sensibilidade artística, consumir, mas se deixar convencer pelos mais novos, pelo hit da cantora de 20 anos, pelas canções geniais do esquisitão e por aqueles mais velhos que nos ensinaram o que a gente finge que não sabe.

Estar atendo à nova geração é não espalhar opiniões ultrapassadas, desperdiçar piadas ruins e entender que está tudo fora de lugar, mas tudo se conectando. O mundo ficou chato pra quem sempre foi chato. Mas também não ficou justo para a quantidade de fiscais que existem. Se a revolução é digital, ela também precisa botar a bunda para fora da janela. Caê sempre disse pra estar atento e forte.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Com calma


João Gilberto Noll morreu hoje. Lembrei da sensação que tive quando li a última linha de Hotel Atlântico, um dos meus livros favoritos. Desde então, tive nele uma de minhas maiores inspirações.

Nos encontramos duas vezes. Em 2004, eu estava em meu primeiro emprego no Diário do Pará, como repórter de cultura, quando soube da vinda de Noll para Belém para uma palestra no Instituto de Artes do Pará. Pedi ao meu editor que pudesse entrevistá-lo. Com um certo nervosismo, me encaminhei ao Iap para uma entrevista que foi acompanhada pela assessora de imprensa e o escritor Vicente Cecim, por quem Noll demonstrou um carinho enorme.

Antes da entrevista, na palestra, Noll falava e lia suas coisas de uma maneira extremamente calma e preguiçosa, o que me remeteu imediatamente ao romance Canoas e Marolas, da coleção Plenos Pecados da Companhia das Letras, que falava sobre preguiça. Sua fala inspirava muita calma. Depois da entrevista, Noll comentou que ficou surpreso de alguém tão novo (eu tinha 25 anos) conhecer tão bem sua obra. Acho que aquela foi a entrevista mais segura que fiz em minha curta carreira de jornalista cultural.

Trocamos e-mails e, antes disso, havia comentado com ele a minha vontade de escrever, e perguntei se poderia enviar um conto para sua avaliação. Ele não só permitiu como, ao responder o email, me deixou tão empolgado que impulsionou ainda mais minha vontade de escrever ficção.

A segunda vez que o vi foi em uma Feira do Livro em Belém. Dessa vez, havia apenas comprado o romance que ele lançava na ocasião e levado para ele autografar. Sua fisionomia demonstrava um cansaço diferente. Me cumprimentou com a mesma educação, mas com um olhar distante de tristeza. Sua caligrafia na dedicatória era confusa, tremida e intensa. Depois, em alguma entrevista, li que ele passava por um momento de depressão muito sério. Me apertou o coração.


Sempre declarei que Hotel Atlântico foi o grande motivo da existência de Iracundo, meu romance publicado em 2014 através do Prêmio Iap de Artes Literárias, do Governo do Estado do Pará. Hoje, quando minha amiga Rochele (que o conheceu bem de perto em um curso de literatura em Porto Alegre) me contou da morte dele, lembrei imediatamente do final de Hotel Atlântico em que, com um som de espanto, fechei o livro. A literatura de Noll me acompanhou por muito tempo e foi meu despertar para criar algo próprio. Sua generosidade comigo foi tão grande que sei que me acompanhará sempre que tiver algo a dizer e colocar pra fora alguma coisa urgentemente.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Luiza e Milton


Quando criança a gente ouve a palavra amor e não sabe bem o que é, exceto por aquele sentimento de apego, dependência e total confiança que se tem pela sua mãe, pai e irmãos. Mais tarde, na dureza que é ser adolescente, se aprende da pior forma. E depois, pisoteado por ele, sabemos como lidar e levá-lo da melhor maneira, com cuidados, pisando em ovos.

Tia Luiza e Tio Milton foram o exemplo que tive desde criancinha do quanto o amor é essa coisa grande e bonita que todo mundo fala. Ele, paulista, mudou de vida e veio até Belém nos anos 1970 viver o que, definitivamente, foi o grande amor de sua vida. Ela, o recebeu de braços abertos. Foi anúncio em revista, que lindo - acreditem no Tinder.

A última vez que vi Tia Luiza ela mostrou um pote, bonito, com as cinzas dele. Disse que estavam ali esperando as dela, para se juntarem e serem jogadas na Baia do Guajará, perto de onde eles deram o primeiro beijo.

Ela, pianista. Ele, poeta e escritor de livros infantis. Deixaram um grande legado para a humanidade: música, poesia e a história de amor mais bonita que pude conhecer.

Hoje deve ser um dia feliz no céu.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

NAS ASAS DA BORBOLETA


Eu devia ter 18 ou 19 anos na época. Nos anos 1990 tudo o que tínhamos em Belém eram lojas de conveniência em postos de gasolina, pequenas festas em casas de amigos - quando os pais viajavam, uma leve queda por poesia e uma singela coleção de CDs de ídolos extemporâneos. A música, no entanto, era o combustível que se lambuzava entre latinhas de cervejas e ervas inocentes.

Eu, Randy, Gustavo, Vinicius Cohen, Sérgio Bernadelli, Paulo Roffé e mais uma corja de melhores amigos em processo de formação - e alguns que não chegaram a tanto mas ainda se mantém no fiel cantinho da memória - corríamos atrás de pequenos movimentos culturais, heroicas sessões de cinema que driblavam o circuito comercial e shows. Procurávamos shows de bandas, cover ou não. 

E graças a esse "ou não", uma ocasião bem marcante se alojou no meu subconsciente numa tarde de domingo, na praça Batista Campos. Já corríamos regularmente atrás de shows d'A Euterpia e vimos o quão verdadeiro foi o surgimento daquela banda, que tinha Marcio Pato, Antônio Novaes (o outrora "Neto Da Euterpia"), Felipão, Dênis, Bruno Nogueira e Japa em sua primeira formação. O quanto aquela coisa inocente, nascida do tédio em uma cidade sem uma cena musical tão prolífica quanto a de hoje, poderia ser tão marcante e ter determinado - sem mesmo que eu soubesse - o que escolheria para a minha vida.

Naquela tarde, o comentário era sobre uma garota de 16 anos, recém chegada de São Paulo, que integraria a banda e dividiria os vocais com Felipão naquele show improvisado no coreto da praça. Magrinha, linda, tímida, descalça e com asinhas de borboleta pendurada nas costas, Marisa Brito metamorfoseou para um caminho que talvez nem ela soubesse também. E virou paixão, aquela coisa da obsessão e meta de vida. Quando a pessoa nasce para a coisa a gente sabe. Até os mais céticos se rendem, mesmo que em silêncio. 

Marisa Brito tocando no Old School Rock Bar, no projeto Sing Songwriter


Na noite de 6 de setembro de 2016, na mais lotada edição do projeto Sing Songwriter, no Old School Rock Bar, a emoção da primeira apresentação intimista que vi de Marisa ao vivo me deixou aceso e arrepiado depois de um dia exaustivo de trabalho - e ainda por cima sem poder beber. Pra mim, na música o que me envolve é a emoção e ver o quanto aquilo é verdadeiro. Isso me ganha de tal forma que dispenso hypes com uma intolerância que até precisa ser controlada, confesso. 

Desculpe meu francês, mas Marisa canta para caralho. Era pra ser uma resenha bonita, respeitosa e, diria, até poética. Mas foda-se, desci o nível. É o timbre incrível atingindo nota por nota, penetrando no coração. É a interpretação visceral que evidencia uma entrega. É a escolha de repertório, o sorriso, a simpatia. O ar condicionado mesclando frio e emoção arrepiou ainda mais minha barba com a belíssima Por trás do desenho - composição em parceria com Ana Clara - e outra (ainda sem nome) em parceria com Marcel Barretto e Pietro (marido de Marisa), com o verso certeiro: "me beije com o coração na boca, nunca com os pés no chão". 

E na mesma noite em que lançamos a programação da 11ª edição do Festival Se Rasgum vi que minha escolha de vida, meus melhores amigos, meu amor e tudo que acontece de bom na minha vida veio da música. As asas da borboleta me lembraram disso.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Spain - She haunts my dreams (da série: resenhas que eu nunca fiz)




Charlie Haden morreu há cerca de dois anos. Os maiores conhecedores de jazz reconhecem sua enorme contribuição e importância para o estilo. Baixista, Charlie tocou com os maiores nomes do jazz e escreveu sua história não apenas na música americana, como mundial.

Mas esse texto não é sobre ele, e sim sobre seu filho Josh Haden, líder de uma das minhas cinco bandas favoritas de todos os tempos, a californiana Spain. O "californiana", no caso, é apenas para localizá-lo geograficamente, pois Spain não tem absolutamente nada do que se espera uma “banda da Califórnia”, especialmente de Los Angeles. Não à toa, Johnny Cash, em seu disco de despedida, gravou a belíssima Spiritual (Jesus, oh Jesus, I don't wanna die alone. Jesus, if You hear my last breath. Don't leave me here left to die a lonely death).

Há três anos pude assistir a um show deles em Paris, em um porão de um pub fedorento onde cabia cerca de 50 pessoas (escrevi aqui sobre essa experiência). Talvez Josh jamais soubesse que ali na plateia estava um de seus maiores fãs.







Não há disco que me emocione mais do que o álbum She haunts my dreams, de 1999, ano em que o álbum me foi apresentado por um amigo. Por muitos anos depois carreguei uma copia em CD-R - uma generosidade para os últimos dias da fita cassete – até que consegui comprar esse e outros discos da banda, inclusive uma belíssima cópia de She haunts my dreams em vinil transparente.
 

Herdando do pai o talento musical e o gosto pelo contrabaixo, Josh optou por tocar algo que o velho Charlie jamais tocou, o low-folk - ou slowcore como ele se apresenta - e se tornar um compositor como poucos que existem em todo esse universo. O álbum em questão, She haunts my dreams, é uma obra-prima não só pelo imediato convite à mais plena introspecção em se deixar invadir a alma de olhos fechados, mas por um tema doloroso que permeia todo o trabalho: as canções de amor mais verdadeiras que meus ouvidos já puderam ouvir.


Respeitando sua introspecção, jamais entrevistaria Josh Haden para perguntar o que inspirou versos como: "I wanna hold you but everytime I try something keeps love away" e "There must be a way to feel like I used to feel before it all went wrong". Ou o silêncio de se amar em segredo: "Nobody has to know, girl our love has grown so strong, close the shades unplug the phone. How can our love be so wrong?". E terminando o disco com "Soon we'll be far apart but girl you've gone and touched my heart. And tomorrow I'm gonna love you just like I do today". Não, nunca vou perguntar como ele termina um disco assim depois de começar com "No love to find, tonight I'm leaving you". Não apenas por respeito, mas por saber que só quem expõe algo tão real e bonito só pode ter usado sua mais absoluta sinceridade.



Spain - foto: Miriam-Brummel




Receita:


Spain é altamente indicado para fãs de Tindersticks, Mazzy Star, Red House Painters, Low, Bedhead, Sparklehorse, Codeine e Barzin.


sábado, 16 de janeiro de 2016

O troco do tubarão solitário (ou Quando Cobain voltou)

 We passed upon the stairWe spoke of was and whenAlthough I wasn't thereHe said I was his friendWhich came as some surpriseI spoke into his eyesI thought you died aloneA long long time ago



Kurt Cobain voltou. Assim, do nada. Somos amigos de longas datas, nos encontramos e fui com ele para um churrasco na casa de um amigo, em Los Angeles. Lá, tomamos banho de piscina junto com outros convidados, quando ele resolveu fazer o grande anuncio: um show de retorno com o Nirvana! Ninguém comemorou muito. No som, tocava alguma música baiana dos anos 90 (pois é) e as pessoas dançavam fazendo coreografias. E em meu off perplexo: gente, peraí, o Nirvana vai voltar! Nessa hora, Kurt chega comigo meio decepcionado. Digo: "cara, acho que te entendo. Você tinha razão em relação ao mundo da música. Tudo tão fugaz, efêmero... As pessoas comemoram a volta do Guns 'N Roses, mas não estão nem aí pra volta do Nirvana!? Que porra é essa, mano!?". E Kurt diz: "Ah, amigão, é assim. Agora tu entendes, né?".

Nessa hora, o sorriso dele desmancha pela primeira vez desde seu reaparecimento, e antes de dar um novo mergulho na piscina, me fala "depois desse show do Nirvana, vou montar um projeto novo chamado The Lone Shark's Payback". Eu olho para o meu amigo com um misto de orgulho e compaixão e digo pra mim: "bem, pelo menos ele está com a cabeça no lugar, tranquilo, sem deslumbre. Kurt é foda! E essa volta dele deve ser a coisa mais amadurecida e verdadeira que a música terá nos últimos 20 anos em que ele esteve morto.".

À noite, saímos pra dar um rolê e encontrar Dave Grohl e Kim Deal, os únicos amigos que ele realmente queria ver, assim como eu. Dave trazia uma maconha genial e fumávamos em uma esquina. Sim, ele já era o Dave Foo Fighters. Até que aparece alguém avisando que a polícia estava ali e que era pra dispersar. Cada um corre para um lado, não tanto para escapar do baculejo, mas para não presentear os tablóides sensacionalistas de L.A..

Eu e Cobain corremos juntos, subindo uma tremenda ladeira esbaforidos. Vimos que uma pessoa vinha atrás da gente. Entramos em um prédio. Atrás da gente vinha alguém, não sabíamos ainda quem. Então, vejo um cara moreno, sem camisa e com uma bazuca no ombro. Nos escondemos dentro de um apartamento, nessa mesma hora tivemos um bug de riso ao nos darmos conta da situação. Pulamos para uma varanda, ainda escondidos. Até que vejo que o moreno com a bazuca era um garoto com um brinquedo. Rimos de novo, e mais alto dessa vez. Adoramos as pessoas.

Quando voltamos ao apartamento, a família que morava lá reconheceu Kurt Cobain e pediu pra tirar fotos e para ele autografar os discos do Nirvana. Ele olhou pra mim e sorriu de verdade, ainda com a cara vermelha pós-gargalhada. Perguntaram o que a gente estava fazendo ali. Tivemos um novo bug de risos lembrando do absurdo que era essa situação do Kurt Cobain voltar, de ter que correr da polícia, confundir uma criança brincando com um maluco com uma bazuca e ter que se esconder no apartamento de uma família.

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No dia que David Bowie morreu, antes de dormir, pensei "isso bem que poderia ser um sonho". Daqueles de você acordar e falar pra alguém: "que sonho doido que eu tive! Sonhei que o David Bowie morria, assim do nada, e deixava um disco de despedida! Só que no mesmo dia  eu estava trabalhando na produção de um show que tinha Dona Onete, Fafá de Belém e um sertanejo que era um tremendo fenômeno de massa. Que sonho louco!".

Foi na manhã seguinte à morte de Bowie. 

Quando Cobain morreu, senti a mesma coisa, de estar perdendo um amigo próximo. Não sei quem comanda os sonhos, mas esse me deixou feliz ao acordar, sentindo que em algum lugar estaria rolando uma jam session especial, face to face with the man who sold the world.