sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Na mesa do fundo



Chegaram quase na mesma hora. Ele gostou do cabelo dela. Ela o achou mais bonito. Ele fez questão de estar bonito. Deixaram as chaves dos carros nas mãos dos manobristas e aguardaram na ante-sala próxima ao balcão da recepção. Escolheram aquela mesa no fundo do bar para evitar cumprimentos sem graça aos fãs e paga-paus de plantão. Ele veio de uma temporada de sucesso no exterior e ela sustentava o mesmo glamour de televisão dos últimos oito anos.

- Que engraçado a gente vir nesse bar. Aliás, seu cabelo está melhor assim, curto.
- Obrigada. Quanto ao bar, escolhi de propósito.
- Ué... qual propósito?
- Bem, esse cenário é a nossa cara, a nossa história.
- Pois é, essa é a questão. Que história?
- Porra, vamos começar assim essa conversa?
- Não, não. Desculpa. É que quando você mandou aquela mensagem falando para a gente se encontrar, achei que era algo mais casual, mais “e ai, quais as novidades?”.
- Bem, era pra isso sim. Só queria estar em um lugar que tivesse mais a ver com a gente.
- Tudo bem, coisa de mulher.
- Pois é, coisa de mulher. E então, e como está esse sucesso todo na Europa?
- Bem, as revistas brasileiras exageram.Você sabe muito bem como funciona.
- É, eu sei. Mas aqui só se falava no teu sucesso na Europa. Os jornais estavam viciados no teu nome.
- É, minha assessora me manda todas essas notícias.
- Ahn... assessora. Ainda é aquela moça?
- Sim, é ela. Não precisa mais se referir a ela como “aquela moça”, né? Já passou tanto tempo.
- Mas eu sabia que estava certa.
- E você sabe que aquilo não significou nada.
- Pode não ter significado, mas é que ela foi a primeira depois de mim.
- Eu sabia que você sentiria ciúmes. Devo admitir que eu sabia que isso te incomodaria.
- Ah é? E contratou ela só pra me fazer ciúmes?
- Claro que não, né? Essa tua mania de se dar mais importância do que tem. Eu estava precisando de uma assessora na época e ela estava desempregada.
- Mas depois você foi lá e comeu ela.
- Ah, mas foi uma vez só, coisa de bêbado.
- Duvido!
- Mas ora ora. Que porra de cobrança é essa? Esqueceu do que tu fizeste pra mim?
- Lá vai. De novo isso?
- Claro! Parece que tu esqueceste, né?
- Não, eu não esqueci e já te pedi desculpas.
- Eu fazendo aquele papel de palhaço indo te encontrar naquele hotel.
- Caralho, eu te disse! Estava em um momento muito confuso da minha vida.
- Sabia que fiquei um bom tempo odiando hotel na frente da praia?
- Que bobagem.
- Bobagem? Bobagem? Eu ficava esperando o interfone anunciar a tua chegada. Esperava três batidas na porta, abrir e te ver. Mas fiquei ali, consumindo todo o álcool daquele frigobar e atirando garrafinhas de dose única no mar. Até o sol eu odiei!
- Credo. Se eu soubesse que iria escutar isso tudo de novo não teria mais te chamado.
- É claro, é porque você detesta se confrontar com seus erros e ter que admitir!
- O que mais tu queres que eu faça? Já pedi desculpas. Te chamei pra gente conversar. Porra, será que tu nunca vais superar isso?
- A merda é que depois de ti demorou muito para eu me recuperar.
- É? Pois pareceu que superou rápido!
- Na verdade superar foi fácil porque a decepção foi grande.
- Eu sei.
- Depois de ti eu não me apaixonei por mais ninguém. Saia com umas mulheres sem pedigree, gente desclassificada. O ano que se seguiu depois daquilo foi terrível.

Duas garotas interrompem a conversa. Perto delas, um menino abicharado segura uma máquina fotográfica digital para tirar uma foto delas com o casal. Eles, esbanjando a educação que o celebritismo os deu, sorriram como se aquela fosse a tarde mais feliz do mundo. Pediram até para ver a foto. Na hora, os dois constataram que aquela vida de sorrisos, abraços e etiqueta era uma farsa. Seus sorrisos nunca denunciariam que aquela conversa estava carregada de emoções ruins.

- Se isso for para a internet eu to fudido.
- Porque, é tão ruim assim ser visto comigo?
- Não, mas meus amigos e, principalmente, a minha namorada não vai gostar de saber que eu te encontrei.
- Ah, tens uma namorada?
- Sim, tenho. Mas ela não mora aqui.
- Eu não sabia disso.
- E porque precisava saber?
- É, tem razão.
- E teu casamento, como está?
- Tá indo bem. A gente se diverte muito.
- Legal... porque será que eu não acredito nisso?
- Porque te faz bem achar que estou na merda.
- Ou porque eu sei que você cria verdades para estar por cima?
- É, já chega. Parei. Vamos pedir a conta.
- Não precisa esperar a conta. Pode ir, eu pago.
- De jeito nenhum quem vai pagar sou eu.
- Beleza, vamos disputar agora quem é mais cortês.
- ...
- ...
- O tempo não apaga mesmo, né?
- Apagar não apaga. Foi um furacão que me arrastou pra bem longe, mas deixou cicatrizes.
- Adoro as tuas metáforas.
- É meu ganha-pão.

Riram.

- Será que a gente pode começar essa conversa de novo?
- Pode sim.
- Mas você ainda vai continuar jogando coisas na minha cara

Ele pensou em sacanagem, mas respondeu sério.

- Não, não vou. Desculpa.
- Tá, tudo bem, desculpo.
- Caralho...
- O que foi?
- Lá estou eu pedindo desculpas por uma coisa que tu provocaste.
- Pronto, tudo de novo.
- Não, beleza. Esquece...
- Tá, vamos recomeçar.
- Tá, vamos pedir a carta de vinhos.
- Humn, é um entendedor de vinhos agora, chique!
- Pelo amor de Deus, “chique” é expressão de puta pobre.
- Esse teu humor... se eu não te conhecesse bem acharia que isso é pra mim.
- É, mas você conhece. Na verdade, é bom estar perto de alguém te conhece bem. Faz tempo que não tenho isso.
- Tá ouvindo o que está tocando agora?
- Sim. Está naquela fita que gravei, né? Que bom saber que músicas cafonas te fazem lembrar de mim.
- Pelos menos elas tem uma função positiva.
- O poder da música pop.
- Lembro sempre que escuto ...
- Sempre?
- Sempre.
- Eu lembrei de você outro dia também, quando deixei a janela aberta.
- Ele entrou de novo?
- Entrou.
- Não esqueço desse dia. Foi uma surpresa quando ele entrou, ficou ali olhando pra gente e viu tudo.
- E depois voou...
- É, depois voou.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O jardim de Tulipa

Entrevista que fiz com a Tulipa Ruiz exclusivamente para a revista Leal Moreira (ex-Living), de Belém.











O jardim de Tulipa

Tulipa Ruiz, uma das maiores revelações da nova música brasileira revela suas inspirações, preferências e sobre sua recente e já consagrada carreira musical

Houve um momento em que a música pop brasileira se perdeu. Rompeu muitas barreiras e correu atrás de tanto prestígio e dinheiro que acabou criando subprodutos cada vez mais repetitivos e com suas fórmulas esgotadas. Mas como toda a categoria musical se reinventa e floresce com uma bela novidade, no jardim da música pop nasceu uma Tulipa.

No coração da grande metrópole das novidades, em que tendências e propostas musicais que se perdem dentro de tanto conceito, a simplicidade, leveza e o pop bem dosado da cantora paulistana Tulipa Ruiz conquistou o Brasil em um curto espaço de tempo que se tornou a grande promessa pop dos últimos anos. Na TV, rádios, blogs, revistas especializadas, Ipods e mp3 players de cada canto do Brasil a voz doce da cantora santista emanou a poesia cantada de seu disco de estréia “Efêmera”, produzido por Gustavo Ruiz, seu irmão, e com composições e parcerias de outro integrante da banda, seu pai Luiz Chagas. Tulipa chegou com sua família. Luiz era guitarrista da banda Isca de Polícia, a banda de Itamar Assumpção, e foi um dos grandes responsáveis pela educação musical de Tulipa, como ela revela na entrevista exclusiva à revista Leal Moreira durante sua passagem por Belém, no projeto Se Rasgum Apresenta, no Círio de Nazaré.

Um show chamado “Novos Paulistas” uniu Tulipa a outros novos nomes consagradas do cenário musical da capital paulista, como Thiago Petit, Tiê, Dudu Tsuda e Tatá Aeroplano (os dois últimos da banda Cérebro Eletrônico), para um show especial no Sesc Vila Mariana. Mas foi junto a outro nome dessa turma que ela começou a se aventurar e investir em dua carreira musical. Marcelo Jeneci, que também vem colhendo belos frutos de seu trabalho de estréia, o disco “Feito pra acabar”, surgiu no mesmo e estúdio e cercado dos mesmos amigos, tanto que Jeneci e Tulipa fizeram diversos shows juntos e tem músicas compostas em parceria. Gustavo Ruiz, guitarrista de Tulipa, foi quem produziu os discos de estréia dos dois artistas.

Com mais de 10 mil cópias vendidas apenas no circuito independente de shows, a cantora, seu irmão e o pai preparam o novo disco, que será lançado no ano que vem. Enquanto isso, Tulipa aproveita e faz seus shows arrebatadores de simpatia e sutilezas, contagiando com seu carisma e uma sensualidade ímpar em cima do palco. Em pouco mais de um ano ela já coleciona coisas como Rock in Rio, Jô Soares, os maiores festivais independentes do país, apresentações internacionais, jogo de vídeo game e até prêmio de melhor cantora pelo canal de TV fechado Multishow.

A leveza de Tulipa se reflete no que ela canta, em temas leves, cotidianos e em canções cheias de arranjos simples e bonitos. Canções que falam sobre passarinhos, bordados, tardes de domingo, sessões de cinema, canções de amor que não falam de amor e rotinas de um músico por São Paulo. Temas simples em canções doces, mas que não soam bobas e encantam pela verdade. E é sobre isso que a cantora revela novidades, inspirações, preferências, comparações e sobre a arte de ser simples.


1 - Mesmo vindo de um berço musical você optou por outro começo de carreira, como jornalista. O lance de artista frustrado virar jornalista foi exatamente o oposto com você?
Acho que não, porque sou filha de jornalista-guitarrista. Na minha cabeça meu pai sempre "escreveu e tocou", nunca separei muito as duas funções. Sempre gostei de escrever, desenhar e cantar, gosto de exercitar cada uma dessas coisas. Não optei por começar como jornalista, aconteceu, assim como a música.

2 – Suas primeiras experiências musicais sempre foram entre família?
Cresci ouvindo os discos do meu pai, vendo minha mãe cantar e meu irmão descobrir o violão. A experiência com a música sempre foi estimulada dentro de casa e fazia parte do nosso cotidiano. Acordar, escovar os dentes, ferver água, colocar um disco, tomar café. Achava estranho um lugar sem violão. Comecei a cantar em casa, com o Gustavo, e até hoje a gente faz música junto.

3 – Li em alguma matéria uma comparação sua como uma mistura de Gal Costa com Bjork. O que acha dessa observação?
Achei divertido. Mesmo se não fosse eu ficaria curiosa em saber quem era a cantora que "mistura de Gal com Bjork". Que combinação maluca e interessante, né? Entendo e não me assusto com a necessidade que as pessoas têm em fazer comparações, é natural. É uma necessidade de decupar o outro para poder entendê-lo. Só que as vezes as comparações viram cruzamentos gozados, como esse. E eu só me divirto.

4 – Quais os cinco discos que você definiria como os mais influentes para a decisão de se tornar uma cantora?
Pode ser seis? “Court and Spark”, da Joni Mitchell, ‘Rumo aos Antigos”, do Grupo Rumo, “Wild Life”, do Wings, “Cantar”, da Gal, “Feminina”, da Joyce e “O que vier eu traço”, da Baby Consuelo.

5 – O segredo é ser leve e sincera?
Acho que o segredo é curtir, no sentido de degustar, de estar muito presente no que está sendo cantado, tocado e falado. E compartilhar isso tudo com que está assistindo.

6 - Em que categoria musical você se encaixaria? Novos paulistas?
Não, Novos Paulistas nem é uma categoria musical, é apenas o nome de um show que aconteceu duas vezes em São Paulo. Prefiro chamar de "Música Popular feita no Brasil de Agora". Às vezes chamo de Pop Florestal, mas é mais uma brincadeira exatamente sobre essa necessidade de catalogar uma música. Quando a gente sai do Brasil, vira World Music. Aqui chamam de Pop, Rock, MPB, Indie. Esses dias disseram que sou samba-rock. Achei estranho, mas depois entendi que gênero musical de um artista é uma coisa absolutamente mutante.

7 – Você passou poucas horas em Belém, mas viveu uma experiência que, aos olhos do público, pareceu verdadeiramente intensa. Existem lugares em que se sente um astral diferente ou sua música e a simpatia proporcionam isso?
Sim, existem lugares em que você sente o astral diferente. Tem lugares mais quentes, outros nem tanto. Em Belém as pessoas estavam com vontade de desfrutar o show. Foi um público muito intenso e generoso. Cantaram todas as músicas. Isso aquece o show, energiza. É uma troca, né?

8 – Como tem sido a experiência no exterior?
Tem sido ótima! O disco foi lançado na Europa e na Argentina e a música Efêmera saiu no game Fifa 11, o que ajudou bastante a não ficarmos limitados aos termos" MPB" ou "World Music". Passamos por Paris, Lisboa, Itália, Londres, Washington, Nova York e Buenos Aires. Em alguns lugares as pessoas cantam as músicas, como em Paris e Buenos Aires. Já em Lisboa o público é atento, porque a língua nos aproxima demais. As entrevistas sempre são fluidas, com perguntas interessantes. Em Londres a gente ganhou uma crítica super positiva do "The Guardian". Então aos poucos, tenho conseguido viajar com a banda para lugares novos e temos sido bem recebidos. É tão legal sair do Brasil com música e ver a recepção das pessoas.

9 – O primeiro disco “Efêmera” é uma coleção de hits, que nasceu de um momento muito espontâneo do surgimento de sua carreira, junto com o Marcelo Jeneci. Você teme uma certa pressão para que o segundo álbum soe tão natural quanto o primeiro?
Quando fui gravar a música Efêmera, chamei a Céu para fazer côro, ao lado da Anelis Assumpção e da Thalma de Freitas. A Céu chegou primeiro e começamos a conversar sobre a grande maratona que é fazer um disco. No final ela me disse" No segundo disco você vai se divertir muito mais!" Isso ficou na minha cabeça de um jeito bom. Estou cheia de vontade de gravar coisas frescas, que eu já inventei ou ainda vou inventar. Claro que as pessoas tem expectativa sobre o meu próximo trabalho. Mas isso não me pressiona, posso dizer até que me estimula. E que venha o próximo disco!

10 – Se pudesse ser bem sucedida em outra profissão na vida, seria o que?
Cientista. Queria ter um laboratório para ficar manipulando coisas coloridas dentro de tubos de ensaios, descobrindo curas para milhares de coisas.

sábado, 31 de dezembro de 2011

2012, te vejo no Meu Garoto



Sem mais softcore no Maxprime na tentativa meia sola de emoções na madruga. É quando constato um desanimo, não exatamente ligado ao fracasso, numa forma de não conseguir ajustar o desejo à preguiça. Tenho essa obsessão pela letargia e acho do caralho me entregar à arte do nada e todos os seus segmentos. 2011 foi um ano bom, um ano em que ampliei meus horizontes geográficos, fiz contatos importantes e em relação à realização profissional espero ter sido o primeiro ano do resto da minha vida.

E por mais que tenha acordado algumas manhãs, olhado para o teto e assistido em flashes os desastres ou orgulhos da noite anterior, a vida seguiu macia, sem contornos proibidos e paradas suspeitas com mãos na cabeça. Suave, suave. Se a saúde deixar eu vou longe, mas daí vem a lembrança do Randy falando do compositor cubano Compay Segundo e seus 100 anos de pulmão negro.

O legal de fazer esse balanço é perceber que desci alguns degraus da escadaria loser. Foram quatro viagens internacionais, outras muitas estaduais, entrei para uma banda que eu era fã e trabalhei para caralho. Não curto a idéia de promessas para o próximo ano. Acho que as coisas que precisam ser mudadas elas são mudadas de imediato, na base da ruptura bruta, sem planos e sem estender prazos para o vício. O foda é a vida solteira que te joga num mar de opções mundanas em que copos com a grafia do seu nome se tornam status. Valeu, Antônio!

Não sei o que fazer em relação à coca-cola, mas enfim, chega de desabafo pessoal. O fato é que 2011 foi um ano muito foda, e espero que ele determine os que se seguirão. Na escala de conquista estão 20 quilos a menos, mais tatuagens, um carro menos vovó e mais viagens, shows, música e projetos culturais realizados pela Se Rasgum, rumo à candidatura de Gustavo Rodrigues, em 2022.

Fala a real, eu to expulsando todos os possíveis novos leitores desse blog com a ausência de atualizações e com a enxurrada de piadas internas, né? O foda é que o Facebook e Twitter comprimiram tanto a necessidade de se dizer algo em poucas palavras, que o texto teve sua função diminuída. Taí uma promessa boa para 2012: mais textos, mais leituras, diminuir a pilha de livros e quadrinhos que se acumulam na minha estante. Bem, seria legal também novas prateleiras, mais CDs, menos quilos, um carro selvagem, tatuagens selvagens, concentração e muita vontade de trabalhar. Mas eu disse que não gostava de promessas para o próximo ano, certo?

Confia em mim, 2012 vai ser da pesada.


Tem que ter um som legal, tem que ter gente legal e ter cerveja barata
(Da dir. à esq.: Junhinho, Vlad, Yo, Adriano, Antônio e Spencer)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Desculpe as flores que eu deixei

De lá de cima, na pequena ponte que permite a passagem de um lado para o outro do salão principal do Hangar, eu e Gustavo olhávamos ao início do show da banda local Vinil Laranja na noite de domingo. Naquele momento comentei com ele: “esse deve ser o último, eu realmente cansei”. Dias depois ele me lembrou disso e falou que sentiu que naquela hora eu realmente estava abandonando o navio. Era o terceiro dia da sexta edição do Festival Se Rasgum, aquele pelo qual sou odiado, adorado, invejado, incentivado, mal tratado, simpatizado e antipatizado no meio musical de Belém. Gustavo havia tomado a mesma decisão dois anos antes, assim como Marcel. Eu ainda não conseguia me livrar do vício.

To vendo o ano chegar ao fim e me deparando mais uma vez com as escolhas que fiz, questionando o sentido de tudo isso e onde é que essa porra vai dar. A amargura dessas primeiras linhas confessionais - que todo ano relato após a experiência de ser um dos protagonistas do Festival Se Rasgum - são embaladas pelo cansaço, pela falta de paciência com o mesmo nhem nhem nhem de sempre e, confesso, pela paixão. Ô amor de puta.

Andando pela feira que ligava um palco ao outro encontrei com Totonho, o cabra. Ele era uma das minhas grandes apostas para esta edição. Assisti a um show uma vez em uma festinha no carnaval no Recife, uma apresentação realmente visceral, direta e rica em timbres, sotaques e referências. O show, lá em Recife, acabou com “Carimbó do macaco”, do mago Pinduca. Trocamos uns emails engraçados. E lá estava Totonho, finalmente falando comigo, depois de um show que me encheu de orgulho.

Totonho foi um dos que fez a coisa toda a valer a pena 

Por ali passavam uns garotos de 14 e 15 anos que conheci naquela semana, antes de um show da banda que agora faço parte, The Baudelaires. Na ocasião, eles me perguntaram se conseguiriam ver o Lobão, e disse que sim, mas com autorização e um responsável acompanhando. Falaram felizes que a mãe de um deles estava lá acompanhando o pequeno bando. Todos estavam com o CD de Totonho e pediram autógrafos e fotos. Os moleques foram ver Lobão e saíram dali fãs de Totonho. Me abraçaram e pularam de felicidade quando eu disse que, semanas depois, teria show dos Móveis Coloniais de Acaju. Só moleque bom! Foi naquele momento eu finalmente senti um puta orgulho de tudo isso e mandei aquele sentimento escroto pra casa do caralho.

Os picos de alegria e melancolia se alternavam como se fosse uma patologia, mas era a montanha russa de sentimentos bipolares. Ver o Antcorpus ali com aquele visual trash metal dos anos 80 botando pra fuder, mesmo sendo a primeira banda do domingo, me fez dar um grito de lá de trás, achando aquilo a visão mais bonita do Festival. Uma banda de trash metal do interior do estado fazendo um show com todo o tesão que uma banda de rock precisa ter. Acabou o tesão, acabou o amor, malandro. É assim que se faz.

Antcorpus no Se Rasgum de 2011. Mostra como é que se faz.

E na sexta-feira, primeiro dia do evento, eu e Dudu Feijó (outro Se Rasgum que tomou a decisão sensata de cuidar da sua vida) estávamos atrás da housemix esperando pelo show eletrizante do Bidê ou Balde. Ele comentava do show anteiror, do Leoni, falando que aquele sim era um grande songwritter brasileiro. E que fusão legal que foi seu show com o Suzana Flag. Joel, Suzane e Ricardo mereciam isso. Trazer o Leoni foi uma das coisas mais legais que pude fazer nos últimos anos.

Aquela questão do songwritter ficou na minha cabeça. E listei, de imediato, Marcelo Jeneci, Lobão, Leoni, Fábio Trummer e Laurentino. Esses caras estão ficando raros. Como a música pop se realimenta de propostas (financeiras e estéticas) e acaba deixando os grandes compositores de lado. Marcelo Jeneci - o show que emocionou todo mundo no encerramento do 6º Festival Se Rasgum – trouxe de volta isso, a composição que deixa um legado para a música pop, coisa que raríssimos artistas tem a manha de fazer hoje em dia.

Marcelo Jeneci encerrou a sexta edição cutucando corações


E se compositor tá virando artigo raro, minhas lágrimas assistindo em casa a apresentação de Laurentino e Os Cascudos foram muito reais. Laurentino merece muito mais do que eu quero falar nesse post. A vitalidade que ele demonstra no palco sempre me comoveu, mas dessa vez senti um certo ar de cansaço e isso me preocupou. São 87 anos de uma vida de caboclo, tocando gaita, compondo roques e dançando magistralmente.

Laurentino, o maior compositor paraense de rock



Leoni foi o primeiro a mostrar canções

Lobão e seu show de 50 anos a mil

Depois da queda, veio um coice e depois mais uma queda. Uma virose que pegou de jeito, me deixou no aconchego de uma febre com direito a filmes, discos, visitas e uma reflexão muito serena sobre o que fazer com a minha vida. Esta edição foi, sem sombra de duvidas, a que mais balançou as estruturas, que teve um belo upgrade, mas que mexeu com quem estava calado, que provocou o underground e que serviu para me apresentar pessoas que eu ignorava a existência, mas que agora sei que existem por se incomodar comigo. Uma frase da minha sócia Renée Chalu sintetizava tudo e me acalmava: “se está rolando todo esse incômodo e críticas é porque o Festival é grande”. E é exatamente isso. As pessoas esperam que o Se Rasgum realize seus sonhos pessoais, já que a internet potencializou o grito dos solitários. Mas para mim, o resultado mesmo são os molequinhos que foram com a mãe, que ficaram fãs de Totonho e Os Cabra e El Cuarteto de Nos e que, na malacagem, ainda conseguiram entrevistar o Lobão para um trabalho na escola.


E é por essas e outras que eu viro mulher de malandro.

Até o ano que vem.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

La porra de las gafas de sol




Pensei em dar um novo rumo à minha vida depois que me deparei com esses dois cartazes trazendo esse line up para Valência e Madrid, apenas uma semana antes da minha ida para a Espanha. Imaginei minha vida trabalhando em um pequeno festival como esse, que não deve reunir mais de 500 pagantes, colocando as bandas dos sonhos e sendo feliz assim na Europa. Já tenho um plano B para se nada mais der certo nessa vida.

Acho que a melhor coisa de Barcelona foram as lojas de disco. Em uma das noites em que seguia a indicação de uma amiga para beber em uma caverna no centro da cidade, chamada Ovelha Negra, vi algumas lojas de disco – já fechadas – e marquei aquela rua para voltar no dia seguinte. Meu deleite durou horas e tinha vontade de gritar “QUE LOJA FODA!” quando ia descobrindo salas e mais salas dentro das lojas de discos naquela rua. A mochila voltou pesada. A melhor surpresa foi quando voltava de metrô, depois de me perder de um compromisso com uma amiga, achei uma loja de discos perdida no meio da estação. Enorme. Lá, só discos, DVDs e jogos de vídeo game de segunda mão.

Mas enfim, vamos à segunda parte da jornada catalã.



Barcelona – Parte 2

Tentei lembrar como era “óculos escuros” em castelhano. Na loja enorme, fedorenta e com um péssimo astral havia dois chinas trabalhando e uma mulher bizarra como cliente. Tentei no inglês “Do you have sunglasses?”. E o china fazendo gesto de que não entendia. “Dark glasses!”. No, no compriendo. Fiz gestos e nada do chinês entender. Até que avistei uma estante com alguns e perguntei para ele como se chamava aquilo em castelhano. Perguntei em inglês e espanhol. E nada do china responder. Só fazia gestos de que não estava entendendo. Sai esbravejando em português: “Filha da puta do chinês quer ganhar o mundo e não fala uma porra dum inglês e nem um espanhol!”. Dia de fúria em Barcelona.

Barcelona e suas hippongas lindas e fedorentas
 
No meu nono dia por ali a vontade de voltar para casa já havia apitado algumas vezes, tanto que no dia do meu retorno acordei cedo, tomei um café da manhã demorado e fui andando para a estação Sants. Lá, perguntei onde pegava o trem que ia ao aeroporto. Era a linha 9, a mesma que passava outro trem que levava para o litoral do sul da França. E no vagão que eu estava todo mundo falando francês, com cara de francês e roupa de praia. Tinha um cara que parecia o Sean Penn. Não era ele. Se fosse acho que também estaria no trem errado.

Tudo o que me restou foi tirar fotos do literal no trem errado

Fui bater quase na França, voltei, peguei taxi, perdi o vôo, desembolsei muitos euros pra remarcar a passagem para o outro dia. E tinha o hotel ainda. Dois eventos que estavam começando naquela sexta-feira tomaram conta de Barcelona. No hotel que estava não havia mais vaga. Nos dois outros mais próximos de lá idem. Achei um quarto em um hotel quatro estrelas que era o mais acessível. Mais euros.

Mesmo que minha ida tenha sido marcada por um rombo no orçamento e um ou outro aborrecimento, a capital catalã, assim como a cidadela de Vic, carimbaram uma excelente impressão da Espanha, com suas mulheres lindas, shorts pequenos, cecê no metrô, educação restrita e sem sorrisos e ótimas lojas de discos.


P.S: que post preguiçoso e protocolar, heim? Só pra constar que ainda atualizo o blog. Atraso mas dou as caras, nem sempre com a mesma empolgação. A tensão pré festival me consome, me tira o sono, a inspiração e a vontade de viver. A merda é que eu adoro isso.

sábado, 24 de setembro de 2011

A música viva de Vic


 
Henrique, um jornalista de Guadalajara, nos falava sobre as drogas do México e de como ele apresentou o Arnaldo Antunes ao Rubem Fonseca em uma feira de livros que ele produz no México. Éramos oito pessoas e havia apenas um carro na saída da Capa Atlântica, onde acabáramos de assistir ao que pode ter sido o melhor e mais surpreendente show da 23 Mercat Música Viva de Vic. Na hora de dividir que iria no carro, eu, Talles e Fernando, um espanhol que nos foi apresentado naquele momento, optamos por ir andando até o outro palco, que ficava há bons 30 minutos andando dali. 

Nas ruas de Vic
 
No caminho, o espanhol nos falava de seu trabalho com distribuição e lançamento de artistas internacionais em terras espanholas. Era dele a distribuição de discos dos Arctic Monkeys, Radiohead e alguns outros nomes não tão indies. Fumando cigarros, passamos em frente ao Jazz Cavas, um dos palcos do festival, que era um pub e uma caverna pequena. Ele viu a programação e disse que achava que aquela banda que estava tocando na hora já havia trabalhado com ele em um outro momento junto com o produtor Steve Albini. A referência era boa, mas optamos por terminar op cigarro e esperá-lo do lado de fora tomando uma cerveja e vendo as muié. Pensamos até em deixar o cara lá, mas aí já seria muita sacanagem. Ele sai e nos diz que a apresentação estava fantástico, e entramos para acompanhá-lo. Só que a surpresa nos tomou de assalto. A dupla era um guitarrista que, naquele momento era ajudado por um rapaz da técnica a colar sua correia com silvertape para que o show continuasse. Vimos quatro músicas. Um baterista vigoroso e um guitarrista barulhento. A dupla se chama Atleta, e é de Barcelona. E aquilo deu um gás tão grande que saímos do Jazz Cavas empolgados fazendo comparações com o Mogwai, só que minimalista e mais enérgico.

A dupla Atleta apavorava na cave experimental
 
Esse foi apenas uma das surpresas que o evento separava para nós que, além de termos a oportunidade de conhecer uma cidade de 30 mil habitantes e tipicamente catalã. Participamos de uma rodada de negócios em que ótimas coisas foram amarradas, com bandas que podem, em breve, dar suas caras aqui. Vou fazer um pequeno resumo dos grupos que mais me chamaram a atenção:

Russian Red
 
Russian Red (Espanha): Era indicação que já haviam me dado na rodada de negócios. O show me surpreendeu pelo charme indie e pela ótima banda que a acompanhava. Achei um pouco de Mazzy Star, só que mais pra cima. Depois, tomando uma cerveja com os produtores de Russian Red, eles me disseram que ela fazia cover de Fade into you, do Mazzy Star, que é muito fã de Mallu Magalhães e que seu disco foi gravado tendo ninguém menos que o Belle & Sebastian de banda de apoio.


Santa Macairo Orkestar
  
Santa Macario Orkestar (França): Acho que em questão de show, de performance ao vivo, o Santa Macairo Oskestar foi o melhor que vi na Espanha. O grupo que tem em sua formação bateria, baixo, piano, trombone, violino, trompete e sax. No som uma mistura de ska, sons balcânicos, fanfarra elétrica, blues de New Orleans e punk - muito mais na atitude, pois a banda não tem nem guitarra. Ao vivo a simpatia e naturalidade dos músicos me lembrou os amigos dos Móveis Coloniais de Acaju, mas ainda melhor.


La iaia
 
La iaia (Espanha): A produtora havia falado comigo naquela tarde e defendeu o som da banda como um Beirut menor. Não gosto do Beirut, mas como ela era uma gata fui ao show. No palco eram três garotos que trocavam de instrumentos entre violões, baixo elétrico, teclados, instrumentos percussivos etc. Teve uma hora que me pareceu uma versão de Blue Monday, do New Order, mas em uma execução folk atípica.


Puerquerama
 
Puerquerama (México): Foi aquele tipo de show que quando vi de longe rolando me aproximei para saber que diabos era aquilo. Seis caras feitos vestidos de vermelho (uns com máscaras de porco) tocando um punk mexicano sem concessões. Os três vocalistas sem camisa. Todos feios. Foi um dos poucos shows que eu vi a moçada pedindo bis e eles voltando ao palco. Se despediram com uma versão de Lust for Life, do Iggy Pop, em bom castellano e ganhando uma salva de aplausos e gritos da platéia depois que um deles soltou um “independenzia a Catallynia!”.

Atleta

Atleta (Espanha): Essa dupla foi a surpresa perdida no meio das vielas de Vic. Um guitarrista cheio de seus efeitos de pedais. Um baterista fora de série. O som tinha ecos de Sonic Youth, Mogwai e várias experimentações noises e post rock. A Atleta está embalada para viagem. São só duas pessoas e muita energia rock.


Los Delincuentes & Tomasito

Los Delincuentes & Tomasito (Espanha): Fui um show para mais de 10 mil pessoas na Plaça Maior, onde aconteciam os shows mais populares abertos ao público. Foi lá que vi Russian Red e La Iaia. E lá que vi também a apresentação de Los Delincuentes & Tomasito. Los Delinquentes são uns seis ou sete caras nos violões e percussões que entoam uma espécie de rumba e tango, mas o tal do Tomasito botava pra fuder. Uma menia à tarde havia me dito que ele era uma espécie de Michael Jackson espanhol. Ela se referiu às danças que, na verdade, não tinham nada a ver com o finado ídolo pop, mas eram engraçadas e levavam o povo a loucura.




quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Olhe ao redor, tá tudo engarrafado

Olhei minha passagem e meu lugar era 26 J. Perguntei pro cara do check in e ele confirmou que era janela sim. Era janela sim, mas todos os outros números, menos o 26, que nesse caso era o que dividia uma sessão de outra dentro do avião. Sabe aquela excessão? Sentei nela. E aí que ficava ao menos no corredor. O velho francês quando me viu pediu para a aeromoça mudar ele de lugar, pois ele tinha “fobia” a sentar no meião. A aeromoça me pediu. Neguei categoricamente. Sentou uma moça de Castanhal ao meu lado. Gente fina, estava indo passar três meses com a prima em Frankfurt. Fora as cotoveladas que ela me dava tentando se ajeitar na desajeitada poltrona foi uma viagem tranqüila. Mas vamos lá, não estou aqui para reclamar da sorte. As coisas estão bem legais e eu cortei o cabelo e estou bem bonito.

No aeroporto de Lisboa encontro o Benjamin Taubkin, que graças às suas experiências anteriores em perder vôo naquele aeroporto, conseguiu fazer com que embarcássemos. Curioso que dessa vez tive uma recepção bem diferente da anterior com os portugueses. Foi patada atrás de patada. Será que eles perderam a paciência em quatro meses? Pode ser a crise, né? É, é a crise.

Lembrei da minha viagem em abril deste ano e do quanto estava ansioso e com um certo medo da viagem ao Velho Mundo. Mas dessa vez foi tudo tão tranqüilo, talvez por que minha preocupação toda tenha ficado em Belém e nessas Seletivas com o show do Otto. E também porque agora é apenas um país e duas cidades.

Já na Espanha, vim em um carro com Taubkin e um motorista gente boa, mas que se estressou com o trânsito na saída de Barcelona. Optamos por deixar o estresse só para ele e tirar uma bela pestana até a cidade. Abria os olhos com pequenos e lindos vilarejos que se acumulavam antes de chegar a Vic. Já na cidade –  pequena, bela e desenvolvida em uma primeira análise - , o motorista deixou Benjamin em um hotel que mais parecia um castelo e me trouxe a um albergue, que mais parecia uma escola norte-americana. Gostei do lugar com uma bela vista da janela (que estou de frente até agora vendo os últimos raios do dia). No albergue, ao menos, estou sozinho no quarto. Ufa! Depois de uma soneca para me recuperar das 25 horas de viagem, vou enfim dar uma banda pela cidade e tentar encontrar o Talles Lopes, presidente da Abrafin que, até onde entendi, está em um outro hotel, diferente do meu e do Benjamin.

Amanhã ou depois mando mais notícias.

Fim de tarde em Vic