quinta-feira, 24 de abril de 2008

Os clipes que ninguém faz


“Conheci você em movimento. Uma segunda-feira faz cem anos. Primeiro te beijei, depois te espetei. Você é tudo pra mim, você é a cor do sol, da cor de um carrossel”. Primeira estrofe da música Carrossel, de Cadão Volpato, vocalista da extinta e cultuada banda paulistana Fellini, que lançou no ano passado seu primeiro disco solo chamado Tudo que eu quero dizer tem que ter no ouvido. O disco encabeça minha lista como a primeira trilha sonora para longas caminhadas durante a tarde em Montevideo.

Minimalista que só ele, Cadão Volpato apresenta um trabalho em que se imagina a apresentação ao vivo mais intimista do mundo. Acompanhado apenas de sua guitarra, muitas vezes sem efeito nenhum, com raríssimos arranjos de terceiros (como uma guitarra “cósmica” em Hino da minha bandeira), o disco é um recado dado ao pé do ouvido, que entrega a intenção de Volpato. Calmo, com a voz grave e, por vezes sussurrada, Cadão fez um dos discos mais incríveis que ouvi nos últimos tempos. Lembro do amigo Alex Pinheiro - DJ veterano de Belém , enciclopédia musical e lobo solitário – ter me comentado sobre o álbum no ano passado. Um disco de MPB com toques de bossa nova e rock que passaria longe da coleção de um fã ortodoxo da “verdadeira” música brasileira.

Na volta pela avenida 18 de Julio, em meio às cagadas de um centro urbano, gente apressada, camelôs e policiais armados, que sempre parecem truculentos entregando malotes de dinheiro em bancos, a calmaria diminuía meus passos no decorrer de cada canção de Tudo que eu quero dizer tem que ser no ouvido. E como um cronômetro feito sob medida para a minha alma, o disco acabou justamente quando cheguei na esquina de minha casa. Guardei o fone, comprei o jornal e subi para enaltecer sua obra através destas palavras.

Não sei se por um sentimento nostálgico, mas a música que tem alimentado minhas caminhadas pela capital uruguaia tem sido a brasileira. Tentei um Supergrass outro dia, mas tirei na terceira música, sei lá, achei anti-climax. Jards Macalé, Gal Costa e Curumim me acompanharam nos outros passeios. O movimento de pessoas que cruzavam por mim pelas ruas parecia ser embalado pela música do país vizinho, e isso era tão improvável de se sentir que proporciona videoclipes fantásticos, desses que nenhum profissional de audiovisual é capaz de traduzir.

2 comentários:

Randy disse...

Cara , da ultima vez qe nos falamos estavas de malas prontas para o Uruguai lembro que a despedida foi mais ou menos assim:- Falou então irmão , amanhã estarei em Montevidéo e tu continuas em Coimbra.
- Falou cara boa sorte.
tomare que tenhas sorte para continuar a escolher as melhores trilhas para a nova velha paisagem.Te confesso que sinto inveja por viveres em uma cidade plana, por aqui não posso dar me ao luxo de optar por sons intimístas, a trilha sonóra em Coimbra tem que ser cronometrada e muito pra cima, por conta do seu relevo, isso pode parecer estranho mas da ultima vez que tentei ouvir Nick Drake , quase precisei de ajuda para respirar, por alguns instantes cogitei em deitar me na calçada de paralelepípedos e esperar a arritimia cardiaca passar, prefiro acreditar que o desconforto físico é por conta das intermináveis ladeiras e não por conta do cigarro.Enfim a trilha das últimas semanas começa com " la casa Azul" e termina com Louis Prima.
Boa sorte irmão.

Marcelo Damaso disse...

Randy, é claro que a culpa é das ladeiras. Onde já se viu cigarro causar esse tipo de desconforto.

Todo dia tenho feito caminhadas pela orla. É lindo. Eu coloco bermuda, tênis macio, camiseta e ando cerca de uma hora. Daí paro, fumo um cigarro e volto.

Nada pode nos deter, caboquinho.