terça-feira, 25 de agosto de 2009

Esse ano eu não morro



"Amar e mudar as coisas me interessa mais"


Pra quem tinha medo de avião, ele até foi longe demais. Porra, tava evitando começar esse texto assim. O Bob, aqui do lado, até riu e pensou em outros trocadilhos com outras músicas dele, mas não deu pra esperar porque tenho um monte de trabalho a fazer agora. O bigodudo que virou o principal assunto da semana é um cara que eu realmente gosto. O disco Alucinação é um dos álbuns mais importantes de uma MPB quase-maldita, um “blues do sertão”, como bem define meu amigo Elvis Rocha.

Meu disco
Alucinação, do Belchior, sumiu misteriosamente da minha prateleira, igual ao compositor. Tá vendo? Era pra começar o texto assim. Agora já foi, e como ele mesmo dizia: “o passado é uma roupa que já não serve mais”.

E aí o Belca desaparece e todo mundo só se toca disso quase três anos depois. Era MPB maldita? Fã-clube em recesso? Sem novos hits na rádio? Nem família, amigos ou outros artistas tinham notícias dele. O cearense doidão deixou dois carros abandonados, um ateliê com algumas obras borradas, filhos criados e um empresário doido pra ganhar o dele nos shows que ele tinha que declinar. Imagino contratante ligando:

- E ai, meu? Queria fazer um show com o Belchior aqui em Mossoró* dia 14.
- Sabe o que é, mestre, é que o Belchior sumiu.
- Como assim sumiu?
- É, ele... bom, ninguém sabe dele há três anos.
- Três anos?
- Mais ou menos...
- Ah, ok. Tá bom, vou chamar o Zé Ramalho, tchau!


Queria ser o biógrafo do Belchior. Que história fantástica rondando a vida (ou morte) dele. Um desaparecimento súbito, sem pistas, só abandono. Gosto desse enredo quando ele termina em um disco fantástico, o que sinceramente acredito que seja essa a idéia. Discordo de quem acha que ele só queria voltar à mídia com esse sumiço. Na verdade, é quase a mesma coisa de falar que suicida quer morrer só para chamar a atenção e não por um motivo de desespero grande, que nada possa curar.

Escuto a música
Alucinação e sempre imagino o autor na hora da composição: Uma garrafa de pinga consumida em mais da metade, um apartamento pequeno e barato no centro de São Paulo (cidade paixão de Belchior), um caderno, uma caneta, um violão e o olhar perdido pela janela buscando palavras para colocar sentido naquilo tudo. Gosto de pensar que Alucinação todo foi escrito assim e algumas vezes também acho que o disco o salvou de um suicídio.

E se esse sumiço vai gerar outro disco fodaço, não sei, mas espero que ele também tenha a função de salvar algumas vidas.



* Desculpa pela cidade-piada roubada, Ressaca Moral.

Um comentário:

Kamilla disse...

Eu gosto do "Alucinação", mas gosto mais mesmo do "Belchior", acho completão!

E sobre o post anterior, sério que a zélia duncan continua mulher??? Sempre achei que ela fosse do babado!