segunda-feira, 26 de maio de 2008

Mallumania

Click do Renato Reis




Visual rezando na cartilha. Molecada vestida para um clipe do Belle & Sebastian. O cenário que comportava espécies de roupa preta, brincos, piercings, tatuagens e tipos de assustar sogras na noite anterior deu vez a jovens de óculos grossos, cabelos lisos, casaquinho de brechó e, se bobear, um cachecol. A noite de 24 de maio do Festival Bananada, em Goiânia, era do avassalador hype indie Mallu Magalhães.


Andando pela área aberta e pelos dois teatros do Centro Cultural Martim Cererê ouvi o nome de Mallu ecoar por lábios finos, grossos e apertados. Cercada pelo pai e por um produtor gaúcho com pinta de profissa, Mallu chegou ao backstage e foi direto para o foco das lentes. Subia nas cadeiras, corria e dava sorrisos. “Mallu, venha pra cá minha filha”. Impossível conter a euforia inocente que ela carregava despretensiosamente.


Robert Zemeckis arriscou seu primeiro longa metragem ao lado do bróder (até então produtor) Steven Spielberg no clássico Febre de Juventude, de 1978. Na película, fãs dos Beatles os seguem desesperadamente pelos Estados Unidos atrás de qualquer migalha de seus passos. Descontando uma forte dose de devoção, as cenas do filme se repetiam 30 anos depois no festival goiano. Em um dos teatros, onde ela se apresentaria, acontecia o show do Sweet Fanny Adams, de Recife, e a moçada já encostou ali para nunca mais sair até a apresentação de Mallu Magalhães. Tentei um lugar por trás do palco, via camarim, mas outros curiosos tiveram a mesma idéia. “Gente, não dá mais para ninguém entrar por aqui”, avisou um dos produtores. Fabrício Nobre, um dos organizadores do evento, pedia calma para evitar um pisoteamento. Mallu entra no palco e a euforia do público foi ensurdecedora. Acompanhada apenas de um violão e uma gaita, Mallu entrou e garantiu a primeira música na maior tranqüilidade. Me meti entre os curiosos e tudo o que pude ver foi a cantora de costas através de uma fresta em um móvel que apoiava o retorno do baterista (que não existia naquela apresentação). Febre de Juventude total.


Tentei pela frente; fila enorme. As pessoas saiam de lá sufocadas e outras de acotovelavam para tentar entrar no teatro. Uma garota baixinha que estava ao meu lado esticava o pescoço para enxergar uma franja, qualquer coisa. Dei a vez e decidi que aquilo não era pra mim. Não adianta falar que foi MTV e Lúcio Ribeiro que criaram o fenômeno. A pequena tem algo mais sim.

Na volta para o hotel, entrei na van com integrantes da banda paraense Filhos de Empregada, que haviam se apresentado e homenageado a celebridade teen durante o show. Um banco da van estava reservado e era de Mallu, do pai e do produtor. Mallu entra no carro e já me ganha na primeira frase. “Nossa, esse cachorro deve estar com raiva”. Nem havia notado um cachorro ali. Mas ela, em seu mundo de inocência e sensibilidade se impressionou com os latidos do cão. Pessoas batiam no vidro da fã gritando um “tchau, Malluuuu”. O pai dela usou apenas duas frases em momentos distintos durante o percurso: “Mas tinha bastante gente, heim?” e “Poxa, não esperava tanta gente”. O sucesso da filhota era algo ainda muito novo na cabeça dele, assim como na minha. Mallu se deu a falar de óculos e soltou mais uma pérola da inocência que já havia me conquistado: “Poxa, queria que meus olhos dessem problema para poder usar óculos. Existe tanta informação no mundo que deve ser legal a pessoa poder filtrar o que vê”. Brunno Regis, do Filhos de Empregada, emendou um papo ainda mais animado com a garota, girando em torno da miopia. Daí Mallu fala de Macacos e o assunto gira em torno do Discovery Channel. Inocência real. Mallu Magalhães não faz tipinho e não posa de nova solução da música. Mas seu ar adolescente de pureza convence muito mais do que sua música, que na verdade não me comoveu em nada. Descemos da van com Brunno entregando um CD dos Filhos de Empregada e aconselhando-a seriamente: “Ó, procure sobre tamanduás domésticos no google”.


Entendi um pouco o que explica uma singela adolescente de 15 anos, voz desafinada e acordes de violão limitados contagiar tanta gente de forma imediata. Não é pela música, mas pela pureza. E acho que o Brasil está caçando uma nova Sandy. Só que dessa vez, Mallu pode ganhar o papel com mais elegância e uma música mais agradável pode tomar conta de ouvidos adolescentes e do Domingão do Faustão.

2 comentários:

Instituto disse...

agora é só trazer ela pra cá né! hehe
Yuri

Sabrina do Fogo Encantado disse...

Não.